Caro leitor,
Recentemente, o mercado de tecnologia, assim como eu, foi impactado por um dado brutal: o Walmart revelou que os testes de fechamento de compra diretamente no ChatGPT geraram uma conversão três vezes pior (uma queda de aproximadamente 66%) do que simplesmente redirecionar o usuário para o próprio site da marca.
Como bem pontuado por executivos do setor, isso não foi um bug. Foi um erro de arquitetura.
Tentar resolver o comércio eletrônico colocando um chat conversacional conectado em sistemas legados, ignora a complexidade real do varejo. Comércio eletrônico não aceita alucinação; se o estoque diz zero, é zero. Se o frete mudou, o preço muda.
No entanto, a resposta para esse problema veio de forma avassaladora no Google I/O 2026. O Google não lançou apenas uma funcionalidade; ele apresentou uma camada inteira de Agentic Commerce (Comércio Agêntico) projetada para corrigir exatamente a base que faltava ao ChatGPT.
Por que o "Instant Checkout" do ChatGPT falhou?
No final do ano passado, o Walmart disponibilizou cerca de 200 mil produtos no ecossistema da OpenAI através de compras diretas no chat. O resultado, detalhado em reportagem da MarTech (https://martech.org/walmart-says-chatgpt-checkout-converted-3x-worse-than-its-own-website), foi classificado como "insatisfatório" por Daniel Danker, vice-presidente de aceleração de IA do Walmart.
O erro crucial foi tentar tratar o checkout como uma etapa isolada e comoditizada. O comportamento do consumidor é complexo:
- O usuário não quer comprar um único item isolado no chat se ele já tem um carrinho aberto com outros produtos no site do varejista.
- O chat falhou em oferecer cross-selling essencial (como sugerir os cabos e suportes corretos ao comprar uma TV).
- A falta de pistas visuais e de contexto de marca destruiu a confiança no momento do pagamento.
Diante disso, a própria OpenAI recuou dessa abordagem centralizada, movendo o foco de volta para a descoberta de produtos e deixando a transação para quem realmente entende dela: o varejista. Por outro lado, o Google já dispõe de recursos de comércio há muitos anos e já estava à frente antes de tudo começar.
Protocolo antes do Produto
Enquanto o mercado tentava ensinar a IA a "conversar" como um vendedor, o Google passou meses construindo os trilhos digitais invisíveis. No Google I/O, esses trilhos ganharam forma com três anúncios interconectados:
1. Universal Commerce Protocol (UCP)
A grande fundação de tudo. Lançado inicialmente em janeiro em parceria com a Shopify, o Universal Commerce Protocol (UCP) é uma especificação de código aberto desenvolvida em colaboração com gigantes do comércio como Shopify, Mercado Livre, Walmart, Target e Etsy. Ele funciona como uma linguagem comum para que qualquer agente de IA consiga ler inventários, calcular impostos e negociar termos de checkout diretamente com o backend do lojista. É o "HTTP" do comércio do futuro.
2. Universal Cart (O Carrinho Inteligente)
Construído sobre o UCP, o Universal Cart é um carrinho de compras verdadeiramente persistente, cross-device e multi-merchant. Conforme anunciado no Blog Oficial do Google, se você estiver montando um computador e adicionar peças de lojistas diferentes, o carrinho roda modelos Gemini em tempo real para: Detectar proativamente incompatibilidades técnicas entre as peças. Buscar históricos de preços e aplicar cupons automaticamente. Cruzar benefícios do seu cartão de crédito (milhas, cashbacks) via Google Wallet no momento exato do clique.
3. Expansão de Superfície e o Agente Spark
O Google não quer criar um "destino de compras" isolado. A estratégia é injetar capacidade transacional onde a atenção do usuário já está. O mesmo carrinho vai rodar de forma nativa no Google Search, Gemini, YouTube e Gmail. Para amarrar tudo, o Spark atuará como o agente autônomo capaz de executar essas compras de ponta a ponta a comando do usuário.
O Impacto para o Ecossistema da Check Commerce
Para nós, que vivemos a realidade da infraestrutura de e-commerce, o movimento do Google valida uma tese central: o varejista precisa continuar no controle.
Diferente do modelo fechado da Amazon — que absorve a transação e o cliente para si —, a arquitetura do UCP do Google garante que o lojista permaneça como o Merchant of Record (Lojista de Registro). Os dados do cliente, o relacionamento pós-venda e as regras fiscais continuam sob o domínio da marca.
A lição para 2026 é clara: A era de "plugar um chatbot de IA" na sua loja acabou antes mesmo de começar. O futuro do e-commerce agêntico pertence às marcas que adaptarem sua infraestrutura, APIs e catálogos para conversar com protocolos abertos.
Quem focar apenas na interface vai continuar convertendo três vezes menos. Quem focar na arquitetura estará disponível para ser comprado em qualquer tela do planeta.
Att,
Érico Scorpioni






